Cidade está irreconhecível, diz morador de Blumenau

Wilson João Schröder, 54 anos, é natural do município de Três de Maio (RS) e escolheu, há 13 anos, Blumenau (SC) para viver com a mulher, Margit, 50 anos, e com a filha Melissa, 17 anos. Outros dois filhos - André, 25 anos, e Daniel, 29 anos, moram em Porto Alegre (RS). Quando chegou na cidade catarinense, Schröder disse que escolheu estrategicamente o local que iria morar porque sabia das ocorrências de enchentes na cidade. Ele mora na rua Sideróloplis, no bairro Itoupava Norte, a 100 m do rio Itajaí-Açu.
Após a tragédia, recebeu seis pessoas em sua casa. “Fizemos um abrigo para três casais, seis cachorros e cinco passarinhos na minha casa.” Schröder disse que “é difícil ver em filme” o que presenciou em Blumenau. “Estamos desolados e sem vontade de trabalhar.”
Confira abaixo o relato do morador de Blumenau:
Quando viemos morar aqui, a primeira coisa foi procurar um lugar que não pegaria enchente. Na Empresa Nossa Senhora da Glória, de ônibus, em frente a minha casa, foi feito um heliporto na enchente de 1983, porque aqui não iria pegar água. Hoje, ele é utilizado quando necessário. Há 33 anos eu sou do Musical Corpo e Alma, do Rio Grande do Sul. Fui durante 25 anos baterista do grupo e hoje sou do departamento de vendas de bailes para todo o Brasil. Optei em morar em uma cidade que ficasse mais central para eu tocar esse trabalho.
Excesso de chuva
Em Blumenau, em dois meses, nós vimos o sol duas vezes. O resto foi chuva. Com toda essa chuva, a terra estava bastante encharcada. Já havia pequenos deslizamentos, mas normais em enxurradas. No sábado (dia 22 de novembro), começou uma chuva intensa e faltou luz das 22h até a 1h. No outro dia, domingo pela manhã, começamos a ver que já não tinha mais luz em praticamente toda a cidade.Informação
Devemos ter de 15 a 16 rádios, mas dessas, só duas estavam funcionando - uma da faculdade e uma outra. As três emissoras de TV locais que temos entraram em cadeia. Aí começamos a assistir o que estava acontecendo na cidade.Solidariedade
Fizemos um abrigo para três casais, seis cachorros e cinco passarinhos na minha casa. Improvisamos colchões no chão e eles dormiram aqui. No outro dia, nós (eu e minha mulher) fizemos almoço para eles.O namorado da minha filha ficou ilhado aqui em casa. Ele não conseguiu voltar para a dele. Esperamos para levá-lo na terça. Na casa dele não chegou a entrar água, mas na rua em frente ela alcançou 2 m.
Deslizamentos
O maior problema não foi a enchente, mas os deslizamentos de morros com casas. Quando fomos levar o namorado da minha filha, nós passamos em lugares que mal dava para cruzar. Na volta, já encontramos ruas interditadas. Eu presenciei uma retroescavadeira tirando o barro do asfalto. Assim que tirava, o morro vinha descendo junto, de tão derretido e encharcado o solo.Dias antes da enchente
Uma semana antes da enchente eu e minha mulher passeávamos pelo centro e comentávamos: como está linda essa cidade. Lembramos, inclusive, que na sexta-feira (dia 21) iriam ser ligadas às luzes de Natal. Ia ter um evento, que foi cancelado. Seriam ligadas 80 mil lâmpadas no centro.Quem viu a cidade uma semana antes, agora não tem como reconhecê-la. Um morro desceu e bloqueou a saída do shopping, que ficou fechado até ontem.
A lama está em torno de 30 cm a 2 m de altura em toda a cidade. As equipes estão trabalhando em diversos pontos. Os moradores também tentam ajudar. A cidade não é mais a mesma, mas o povo daqui já enfrentou isso mais vezes e é um povo muito batalhador. Ele ajuda no que pode. É um povo muito unido.
Uma danceteria e um restaurante do bairro Itoupava Norte anunciaram que têm poço artesiano e estão cedendo água gratuitamente. Todo mundo foi se abastecer nesse local.
Nós voltamos ao tempo uns 50 anos. Eu instalei na pia do banheiro um bebedouro para lavar o rosto e lavar os dentes. Banho, tomávamos de bacia. E um dia ligamos para minha sogra e ela estava com a caixa d’água pela metade e tomamos banho lá. No vaso, usávamos água de balde. Fui umas quatro vezes buscar água no restaurante que estava fornecendo gratuitamente. Às 11h de quinta-feira, a água voltou ao normal.
Reporter: Fabiana Leal
Fonte: Terra



